
Em janeiro de 2011, a poeta colombiana Angye Gaona voltava de uma
viagem para a Venezuela quando foi presa pela polícia da Colômbia
acusada absurdamente de “narcotráfico” e “rebelião”. Durante longos 4
meses, mesmo sem provas, permaneceu encarcerada. Vencido o prazo máximo
para seu julgamento, Angye teve que ser posta em liberdade. Mas agora,
no dia 23 de janeiro de 2012, ela e mais 3 pessoas serão injustamente
julgadas e correm o risco de pegar até 20 anos de prisão.
Para entender o processo kafkiano por qual passa Angye (e milhares
de outros colombianos) é preciso entender os reais motivos de sua prisão
e, para isso, é preciso compreender a Colômbia, verdadeiro ponto-cego
da América, apagada pela mídia e pouco discutida até mesmo pelas
organizações de esquerda.
Colômbia: miséria e rebeldia
A Colômbia, apesar de ser a 4ª maior economia da América Latina, é o 3º país mais desigual do mundo: 68% da população são miseráveis e pobres que “vivem” ao lado de uns poucos milionários, como o banqueiro Sarmiento Angulo que domina quase metade do crédito do país, sendo o 75º no ranking dos mais ricos do mundo. Essa grande desigualdade vem crescendo enormemente com a ação das multinacionais que exploram e roubam as riquezas naturais da Colômbia, agindo sobre 40% do território (áreas já concedidas ou em trâmite).
A Colômbia, apesar de ser a 4ª maior economia da América Latina, é o 3º país mais desigual do mundo: 68% da população são miseráveis e pobres que “vivem” ao lado de uns poucos milionários, como o banqueiro Sarmiento Angulo que domina quase metade do crédito do país, sendo o 75º no ranking dos mais ricos do mundo. Essa grande desigualdade vem crescendo enormemente com a ação das multinacionais que exploram e roubam as riquezas naturais da Colômbia, agindo sobre 40% do território (áreas já concedidas ou em trâmite).
Esse quadro de desigualdade vem se construindo ao longo da história
do país, gerando choques violentos entre liberais, conservadores e
comunistas. Um dos mais marcantes acontecimentos de sua história se deu
em 1964, quando liberais e conservadores lançaram o exército contra
camponeses rebelados influenciados pelos comunistas, promovendo o
Massacre de Marquetália. Desse massacre, escapam para as selvas 48
camponeses que fundam as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia
(FARC) e dão início a mais antiga guerrilha do mundo, que controla hoje
entre 15% e 20% do território colombiano.
Dentro desse contexto de enormes desigualdades e intensa revolta
popular, os governos colombianos (Ayala, Uribe e, agora, Santos) vêm
reprimindo duramente qualquer manifestação de pensamento crítico;
criminalizando as liberdades de expressão, manifestação e livre
organização; e reduzindo as FARC a um grupo “narco-terrorista”,
ignorando suas reivindicações políticas. Tudo isso com enorme apoio
militar dos EUA (Plano Colômbia) que tem interesse geopolítico e
econômico na região.
O terrorismo de Estado na Colômbia
Há na Colômbia pelo menos 7.500 presos políticos: 90% de civis
(sindicalistas, jornalistas, acadêmicos, estudantes, ambientalistas,
camponeses) e apenas 10% de membros das FARC. Dados oficiais da
Defensoria do Povo, vinculado ao Ministério Público da Colômbia,
reconhecem que há 61.604 pessoas “desaparecidas” nos últimos 20 anos,
sendo que mais 16.655 ainda não receberam esse status, pois
desapareceram há “pouco tempo” (os números estimados pelos movimentos
são bem maiores). Em 2010, a Central Unitária dos Trabalhadores da
Colômbia denunciou que, em 10 anos, 2.778 sindicalistas foram
assassinados, ou seja, 60% dos sindicalistas assassinados no mundo. São
comuns as práticas de tortura e assassinatos exemplares praticados pelo
exército e pelas milícias de paramilitares que são incentivadas e
acobertadas pelo governo. Recentemente, foi encontrada bem atrás da
força militar Omega (menina-dos-olhos do Plano Colômbia), a maior cova
comum do continente com 2000 corpos de “desaparecidos”.
Os números indicam um novo recorde macabro na América: a
“democracia” colombiana tem destruído mais vidas que as ditaduras do
Chile e da Argentina juntas (as duas mais sangrentas!).
“E se um menino preso chora, dirás,
e se um homem é torturado, dirás.”
e se um homem é torturado, dirás.”
O terror de Estado na Colômbia tem intimidado a população que se cala
para não ser presa ou morrer. Angye Gaona, ao contrário, vem se
posicionando publicamente a favor da luta dos trabalhadores, estudantes e
dos milhares de presos políticos. Angye, artista de intensa atividade
cultural, faz de sua poesia e de sua arte uma arma de luta e esperança
para todos que desejam afirmar a vida na Colômbia. Por isso mesmo, o
governo de Santos armou sua prisão e agora prepara um julgamento de
“cartas marcadas”, que será realizado a 800Km da cidade natal de Angye,
impedindo o depoimento e as manifestações das pessoas que a conhecem. O
governo colombiano quer prender Angye por ser livre!
Para garantir a liberdade de Angye e dos demais presos políticos é
preciso uma campanha internacional que denuncie o terrorismo de Estado
colombiano. Calar diante da situação colombiana é aceitar,
indiretamente, que o mesmo ocorra no Brasil. É visível, nos últimos
anos, o crescente desrespeito aos direitos humanos no Brasil que se
manifesta mais claramente nas ações policiais e militares em morros, nas
periferias, nas universidades e nas desocupações. É preciso forjar,
apesar das dificuldades, a unidade de luta latinoamericana, pois um
fantasma ronda a América… e, infelizmente, não parece ser o do
comunismo.
Para saber como lutar pela liberdade de Angye Gaona visite o site:
www.angyegaonalivre.wordpress.com.
www.angyegaonalivre.wordpress.com.
Jefferson Vasques
Poeta e militante
Poeta e militante
(fonte de informações: Agenda Colômbia-Brasil, importante frente de
denúncia no Brasil da situação da Colômbia
http://agendacolombiabrasil.blogspot.com/)
TECIDO BRANDO
(Angye Gaona, tradução de Jefferson Vasques)
(Angye Gaona, tradução de Jefferson Vasques)
Calma e tino te digo, peito brando.
Não queiras conter toda a água dos mares.
Toma uns litros de ondas bravas,
de espuma fera.
Deixa que se encrespe dentro de ti,
cavalo afrontado,
mas não domes esta água
que o tempo a requer viva
e pulsante.
Respira e prepara-te, peito brando.
Não queiras conter todo o ar dos abismos,
toma só o de tua pequena inspiracão,
o acaricie por instantes,
o susurre como se ao último alento
e o deixa livre ir ali,
aonde tu também querias:
vasto, imenso, indistinto.
Sopra forte o que guardas.
Não recolhas mais lágrimas, peito brando.
E se um menino preso chora, dirás,
e se um homem é torturado, dirás.
Que não é tempo de guardar a ira, te digo.
É momento de forjar e fazer luzir
o fio da navalha.
Não queiras conter toda a água dos mares.
Toma uns litros de ondas bravas,
de espuma fera.
Deixa que se encrespe dentro de ti,
cavalo afrontado,
mas não domes esta água
que o tempo a requer viva
e pulsante.
Respira e prepara-te, peito brando.
Não queiras conter todo o ar dos abismos,
toma só o de tua pequena inspiracão,
o acaricie por instantes,
o susurre como se ao último alento
e o deixa livre ir ali,
aonde tu também querias:
vasto, imenso, indistinto.
Sopra forte o que guardas.
Não recolhas mais lágrimas, peito brando.
E se um menino preso chora, dirás,
e se um homem é torturado, dirás.
Que não é tempo de guardar a ira, te digo.
É momento de forjar e fazer luzir
o fio da navalha.




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